A Inteligência Artificial e os novos desafios da formação veterinária

A Inteligência Artificial e os novos desafios da formação veterinária

No início de 2025, pesquisadores da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, divulgaram resultados promissores do emprego de Inteligência Artificial (IA) para identificar sinais de osteoartrite em cães por meio da análise automatizada de radiografias. Pouco antes, universidades europeias já vinham utilizando algoritmos para reconhecer alterações pulmonares em exames tomográficos, enquanto centros de pesquisa ligados à pecuária de precisão empregavam visão computacional para monitorar locomoção, consumo alimentar e bem-estar de bovinos em tempo real. Em poucos anos, a IA deixou de ser uma tecnologia experimental para ocupar espaço crescente na rotina da pesquisa veterinária e, progressivamente, também na prática clínica.

O movimento acompanha uma tendência observada em praticamente toda a área da saúde. Ferramentas capazes de processar milhares de imagens, correlacionar bases de dados clínicos ou localizar evidências científicas em poucos segundos passaram a executar tarefas que antes consumiam horas de trabalho. A consequência mais visível não foi a substituição do profissional, mas uma mudança profunda na forma como a informação circula. Pela primeira vez, estudantes e médicos-veterinários têm acesso quase instantâneo a um volume de conhecimento impossível de ser assimilado apenas pela experiência individual.

Esse avanço tecnológico, entretanto, produziu um efeito inesperado. Quanto mais acessíveis se tornam as informações, maior passa a ser a diferença entre consultar uma resposta e saber interpretá-la. Na Medicina Veterinária, essa distinção é particularmente relevante porque o diagnóstico raramente depende de um único dado isolado. A mesma alteração radiográfica pode assumir significados completamente distintos conforme a espécie, a idade, a conformação anatômica, o histórico clínico ou a finalidade zootécnica do animal. É justamente nesse ponto que a formação prática preserva um papel insubstituível.

A discussão deixou de ser hipotética. Em 2025, o Conselho Federal de Medicina Veterinária dedicou uma edição inteira de sua revista científica aos impactos da Inteligência Artificial sobre a formação profissional, abordando os riscos da dependência acrítica de algoritmos, os desafios éticos relacionados ao uso dessas ferramentas e a necessidade de fortalecer competências que nenhuma plataforma consegue reproduzir: o raciocínio clínico, a execução técnica de procedimentos e a tomada de decisão diante de situações urgentes e complexas.

A IA amplia a capacidade analítica da profissão, mas também reforça um princípio que a acompanha desde sua origem: conhecimento teórico e habilidade prática não pertencem ao mesmo campo de aprendizagem. O primeiro pode ser continuamente atualizado por livros, artigos ou plataformas digitais. O segundo depende de repetição, treinamento supervisionado e familiaridade progressiva com estruturas anatômicas, instrumentais e técnicas cirúrgicas.

Da pesquisa ao consultório veterinário

Embora ferramentas como o Gemini, ChatGPT ou Claude tenham popularizado o tema apenas recentemente, a aplicação de Inteligência Artificial no meio científico antecede em muitos anos o surgimento dos modelos generativos de linguagem. Desde a década passada, grupos de pesquisa trabalham com algoritmos de aprendizado de máquina para interpretar exames diagnósticos, desenvolver modelos epidemiológicos e analisar grandes bases de dados relacionadas à saúde animal.

Na Universidade da Califórnia, por exemplo, pesquisadores vêm utilizando modelos computacionais para identificar alterações em exames de imagem ortopédicos e torácicos. Na Universidade de Cambridge, estudos envolvendo visão computacional analisam padrões de locomoção em bovinos leiteiros para detectar precocemente sinais de claudicação, uma das principais causas de perdas econômicas na pecuária mundial. Já centros ligados à medicina equina empregam algoritmos capazes de reconhecer pequenas assimetrias biomecânicas durante o deslocamento dos animais, permitindo identificar alterações locomotoras antes mesmo que elas se tornem perceptíveis à avaliação clínica convencional.

E a produção científica acompanha essa expansão. Levantamento publicado na base Scopus mostra crescimento consistente do número de artigos relacionados à Inteligência Artificial aplicada à Medicina Veterinária ao longo da última década, abrangendo áreas como diagnóstico por imagem, patologia digital, epidemiologia, reprodução animal, anestesiologia e cirurgia. Em outras palavras, a IA deixou de representar um tema restrito aos laboratórios de informática para tornar-se objeto permanente de investigação dentro das próprias escolas veterinárias.

Na prática clínica, talvez, a aplicação mais conhecida esteja na radiologia. Algoritmos treinados com milhares de exames conseguem destacar regiões suspeitas de fraturas, alterações articulares ou lesões pulmonares, funcionando como uma segunda leitura para o médico-veterinário. A vantagem, então, vai além da velocidade de processamento: em serviços de grande volume, essas ferramentas ajudam a reduzir variabilidade entre observadores, chamando atenção para alterações discretas e organizando fluxos de trabalho cada vez mais complexos.

Esse cenário ajuda a explicar por que a Inteligência Artificial vem sendo apresentada como uma tecnologia de apoio, e não como substituta da atuação profissional. Um software pode indicar que determinada imagem apresenta elevada probabilidade de ruptura do ligamento cruzado cranial. O algoritmo, contudo, não examina a marcha do animal, não avalia dor à manipulação articular, não considera o histórico informado pelo tutor nem define qual técnica cirúrgica oferece maior benefício para aquele paciente específico. E, entre reconhecer um padrão estatístico e decidir em favor de uma conduta, existe um intervalo que continua pertencendo ao médico-veterinário.

O que a inteligência artificial ainda não alcança entre o diagnóstico e o tratamento

 A incorporação da inteligência artificial à Medicina Veterinária trouxe ganhos evidentes para atividades relacionadas à análise de informações. O mesmo não pode ser dito sobre as etapas que dependem de julgamento clínico, execução técnica e tomada de decisão diante de situações que raramente seguem o comportamento previsto pelos modelos computacionais.

Um exemplo relativamente simples ajuda a compreender essa diferença. Dois cães podem apresentar exames de imagem semelhantes, ambos compatíveis com ruptura do ligamento cruzado cranial. A partir desse ponto, porém, as semelhanças podem terminar. Peso corporal, idade, nível de atividade física, presença de doenças associadas, condição muscular, conformação anatômica e expectativa funcional do animal interferem diretamente na definição da estratégia terapêutica. A interpretação do exame constitui apenas uma etapa de um processo muito mais amplo, que envolve avaliação clínica, planejamento cirúrgico e acompanhamento pós-operatório.

Essa realidade se torna ainda mais evidente em áreas cirúrgicas. Nos últimos anos, a Medicina Veterinária assistiu à expansão de técnicas ortopédicas cada vez mais sofisticadas, incluindo osteotomias corretivas planejadas digitalmente, utilização de placas bloqueadas, impressão tridimensional para confecção de guias cirúrgicos e desenvolvimento de implantes específicos para diferentes espécies e portes animais. O acesso à informação sobre esses procedimentos tornou-se mais fácil do que nunca. A execução, entretanto, continua exigindo treinamento progressivo, compreensão anatômica aprofundada e domínio técnico adquirido por meio da prática.

Aprender uma sequência de etapas operatórias é apenas parte do desafio. Em cirurgia ortopédica, pequenas variações anatômicas podem alterar completamente a condução de um procedimento. A direção de um acesso cirúrgico, a escolha do implante, o posicionamento de um parafuso ou a correção de um eixo angular dependem de referências espaciais que dificilmente podem ser desenvolvidas apenas por meio de leitura ou observação passiva.

Essa discussão ganhou força nos últimos anos em razão de outro debate que ultrapassa a própria Inteligência Artificial: a expansão do ensino remoto nas profissões da saúde. Em 2025, o governo federal publicou novas diretrizes restringindo a oferta integralmente a distância para cursos que exigem atividades práticas presenciais, entre eles Medicina, Odontologia, Enfermagem, Medicina Veterinária e outras graduações da área da saúde. A medida foi acompanhada por entidades profissionais e instituições científicas que vinham alertando para a impossibilidade de substituir integralmente experiências práticas por atividades virtuais.

O debate não se limita à graduação. Mesmo após a formação universitária, grande parte do desenvolvimento profissional continua ocorrendo em laboratórios, centros de treinamento, programas de aperfeiçoamento e cursos voltados ao desenvolvimento de habilidades específicas. A própria evolução tecnológica da Medicina Veterinária contribuiu para ampliar essa necessidade: quanto mais sofisticados se tornam os procedimentos, maior tende a ser a demanda por ambientes que permitam treinamento seguro antes da aplicação clínica.

O que muda na formação dos novos profissionais

Atualmente, o mercado brasileiro já conta com ferramentas inovadoras que contribuem para o aprimoramento do ensino e do processo de aprendizagem.

O avanço da IA tem produzido uma transformação no perfil de competências valorizadas pelo mercado veterinário. Durante décadas, parte importante da formação esteve associada à capacidade de memorizar informações e acumular conhecimento técnico. Hoje, quando artigos científicos, protocolos clínicos e bases de dados podem ser acessados em segundos, outras habilidades passam a ganhar relevância.

Diversas escolas veterinárias internacionais já discutem como preparar profissionais para um cenário em que a informação está amplamente disponível, mas a interpretação continua dependendo da experiência e do olhar do ser humano. Relatórios produzidos pela American Veterinary Medical Association (AVMA) e por instituições ligadas ao ensino veterinário europeu apontam para uma valorização crescente do raciocínio clínico, da capacidade de integrar informações provenientes de diferentes fontes e da tomada de decisão em ambientes complexos. Na prática, o diferencial competitivo deve deixar de estar apenas no acesso ao conhecimento e passará a residir na capacidade de utilizá-lo adequadamente.

Essa mudança produz reflexos diretos sobre a educação veterinária. Se algoritmos conseguem resumir artigos, localizar evidências e sugerir hipóteses diagnósticas, torna-se ainda mais importante desenvolver competências que dependam de experiência prática. A familiaridade com estruturas anatômicas, por exemplo, continua sendo um requisito fundamental para quem pretende atuar em cirurgia, ortopedia, odontologia veterinária ou diagnóstico por imagem. O mesmo ocorre com habilidades relacionadas à manipulação de tecidos, planejamento de procedimentos e execução técnica de intervenções terapêuticas.

Por essa razão, observa-se um crescimento consistente de metodologias que aproximam teoria e prática durante a formação. Simuladores, laboratórios de habilidades, modelos anatômicos e protótipos desenvolvidos para treinamento vêm sendo incorporados por universidades e centros de ensino em diferentes países. A proposta não consiste em substituir a experiência clínica, mas criar oportunidades para que estudantes e profissionais desenvolvam segurança, coordenação motora e compreensão espacial antes do contato com situações reais.

A lógica é semelhante à observada em outras áreas de alta complexidade. Pilotos treinam em simuladores antes de assumir aeronaves comerciais. Cirurgiões utilizam modelos para aperfeiçoar técnicas antes de incorporá-las à rotina. Em Medicina Veterinária, esse movimento acompanha a crescente sofisticação dos procedimentos diagnósticos e terapêuticos disponíveis.

Tecnologia e treinamento seguem o mesmo caminho

À primeira vista, Inteligência Artificial e formação prática podem parecer temas pertencentes a universos distintos. Na realidade, ambas representam respostas complementares ao mesmo desafio: lidar com uma quantidade crescente de conhecimento científico e transformá-lo em decisões seguras para os pacientes.

A tecnologia amplia a capacidade de análise. Algoritmos conseguem processar informações em escala impossível para qualquer profissional individualmente. O treinamento prático continua sendo o espaço onde conhecimento teórico, raciocínio clínico e habilidade técnica se encontram. É nesse ambiente que o futuro médico-veterinário aprende a interpretar estruturas anatômicas, desenvolver percepção espacial, compreender relações biomecânicas e executar procedimentos que exigem precisão.

O cenário que se desenha para os próximos anos não aponta para uma disputa entre Inteligência Artificial e experiência humana. O que se observa é uma integração progressiva entre ferramentas digitais cada vez mais sofisticadas e processos formativos que valorizam competências práticas. À medida que a tecnologia avança, cresce também a necessidade de profissionais capazes de interpretar criticamente as informações que ela produz.

Recursos educacionais voltados ao treinamento anatômico e ao desenvolvimento de habilidades técnicas assumem papel estratégico na formação veterinária contemporânea. A aprendizagem não acontece apenas diante da tela de um computador ou por meio do acesso a bases de dados. Ela também se constrói pela observação direta das estruturas, pela repetição de procedimentos e pela experiência acumulada ao longo do treinamento.

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