Como tornar o laboratório de anatomia mais sustentável sem abrir mão da qualidade do ensino

Como tornar o laboratório de anatomia mais sustentável sem abrir mão da qualidade do ensino

Manter um laboratório de anatomia envolve muito mais do que disponibilizar peças para as aulas práticas. Conservação, ventilação, gerenciamento de resíduos, segurança ocupacional, armazenamento e disponibilidade de material biológico fazem parte de uma estrutura complexa, indispensável para a formação de profissionais da saúde, mas que também exige recursos, infraestrutura e processos específicos.

Diante desse cenário, instituições de ensino vêm ampliando a discussão sobre como tornar seus laboratórios mais eficientes e sustentáveis sem comprometer aquilo que realmente importa: a qualidade da experiência prática e da formação dos estudantes.

A resposta não está, necessariamente, em escolher entre peças cadavéricas e modelos sintéticos. Está em compreender qual recurso oferece maior valor para cada objetivo de aprendizagem.

Em determinadas atividades, o contato com o cadáver permanece insubstituível. Em outras, modelos anatômicos sintéticos podem ampliar a repetibilidade das práticas, facilitar a padronização entre turmas e reduzir a necessidade de mobilizar toda a estrutura associada ao uso de material biológico.

Essa combinação pode abrir espaço para uma gestão mais estratégica do laboratório.

O que está por trás da operação de um laboratório de anatomia?

Antes que uma peça anatômica chegue à mesa de dissecção, existe uma cadeia de procedimentos destinada à sua obtenção, preparação, conservação, armazenamento, utilização e posterior descarte. Dependendo dos protocolos adotados pela instituição, podem ser necessários processos de embalsamamento, refrigeração ou congelamento, além da utilização de substâncias químicas destinadas à preservação dos tecidos.

Também fazem parte dessa operação:

  • sistemas de ventilação e exaustão;
  • equipamentos de refrigeração;
  • água e materiais destinados à higienização;
  • recipientes e estruturas específicas de armazenamento;
  • protocolos de segurança ocupacional;
  • gerenciamento e destinação de resíduos;
  • aquisição recorrente de insumos.

Esses procedimentos são fundamentais para garantir segurança, conformidade e qualidade acadêmica. Ao mesmo tempo, representam uma demanda operacional que precisa ser considerada na gestão do laboratório. Por isso, falar em sustentabilidade no ensino de anatomia não significa simplesmente reduzir consumo ou abandonar práticas tradicionais. Significa analisar de maneira mais ampla onde estão os recursos mobilizados em cada atividade e quando eles são realmente indispensáveis para o objetivo pedagógico proposto.

Formol, ventilação e segurança também fazem parte dessa discussão

Entre os aspectos mais conhecidos da conservação cadavérica está o emprego de formaldeído, normalmente utilizado na forma de soluções de formalina. A substância é eficiente para a fixação dos tecidos, mas sua utilização exige medidas adequadas de controle e segurança devido aos riscos associados à exposição.

Em um estudo realizado em um laboratório de anatomia com 47 mesas de dissecção, sob condições específicas de conservação e ventilação, foram identificadas concentrações médias de formaldeído entre 0,635 e 1,82 mg/m³ durante as atividades práticas. A emissão média estimada chegou a 148 mg por minuto ao longo das sessões analisadas.

Outros estudos também já investigaram a exposição de estudantes e profissionais ao formaldeído durante aulas práticas. No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer reconhece os laboratórios de anatomia entre os ambientes profissionais nos quais pode ocorrer exposição ao formol e destaca os efeitos decorrentes do contato com a substância, reforçando a importância de medidas de controle.

Além da exposição ocupacional, há também uma questão relacionada ao manejo dos resíduos. Soluções utilizadas na conservação, recipientes contaminados, tecidos e outros materiais resultantes das atividades de laboratório não podem simplesmente seguir o fluxo convencional de descarte.

No Brasil, instituições de ensino e pesquisa estão abrangidas pelas regras de gerenciamento de resíduos de serviços de saúde estabelecidas pela RDC nº 222/2018 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária.

Portanto, quando se fala em sustentabilidade dentro de um laboratório de anatomia, o debate envolve diferentes dimensões: energia, produtos químicos, segurança, geração de resíduos, infraestrutura e utilização racional dos recursos disponíveis.

O que acontece depois de cada aula prática?

Grande parte da estrutura necessária ao funcionamento de um laboratório não é percebida pelos estudantes durante a atividade. Após uma aula prática, tecidos removidos durante procedimentos, materiais descartáveis, recipientes contaminados e soluções utilizadas na conservação precisam seguir os protocolos definidos pela instituição.

Além disso, determinadas atividades exigem higienização dos ambientes, reposição de insumos, acondicionamento e gerenciamento dos materiais utilizados. Nada disso representa um problema em si. São procedimentos necessários.

A questão estratégica para gestores e coordenadores é outra: todas as atividades práticas precisam mobilizar a mesma estrutura?

Em algumas situações, sim. Em outras, recursos complementares podem cumprir o objetivo de aprendizagem sem que seja necessário recorrer exclusivamente a uma nova peça biológica. É justamente nesse espaço que os modelos anatômicos sintéticos começam a assumir um papel relevante.

Onde os modelos sintéticos podem complementar o ensino cadavérico?

Modelos sintéticos ampliam as possibilidades de aprendizado. Oferecendo mais repetibilidade, precisão e flexibilidade ao ensino da anatomia

Modelos sintéticos não precisam ser encarados como substitutos do cadáver. Na prática, diferentes recursos podem atender a diferentes necessidades do ensino. A peça cadavérica permite ao estudante observar variações anatômicas reais, relações espaciais e características dos tecidos que dificilmente podem ser reproduzidas integralmente por um modelo.

Por outro lado, os modelos sintéticos oferecem características particularmente interessantes para determinadas atividades: repetibilidade, padronização, disponibilidade e possibilidade de direcionamento para objetivos específicos de aprendizagem.

Essa complementaridade já vem sendo estudada. Um estudo experimental randomizado realizado com estudantes do primeiro ano de Medicina e Enfermagem do Centro Universitário Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein, em São Paulo, comparou aulas práticas de anatomia do tórax e abdômen utilizando modelos sintéticos ou vísceras humanas.

Dos 185 participantes inicialmente avaliados, 122 foram incluídos na análise. Nos dois módulos estudados, não houve diferença significativa no desempenho entre os grupos.

Uma revisão sistemática e metanálise publicada em 2025 reuniu sete ensaios clínicos randomizados, envolvendo 536 estudantes de graduação em Medicina, e encontrou diferença moderada no desempenho acadêmico favorável aos grupos que utilizaram modelos sintéticos.

A própria pesquisa, entretanto, classificou a evidência como de baixa certeza e apresentou heterogeneidade considerável entre os estudos. Os autores também ressaltaram que os resultados não justificam a retirada de espécimes humanos dos currículos.

Esse ponto é importante. A discussão mais produtiva não é descobrir qual método deve substituir o outro, é identificar como cada recurso pode ser utilizado de maneira mais estratégica dentro do processo de formação.

O que isso significa para a gestão de um laboratório de anatomia?

Quando os recursos são escolhidos de acordo com os objetivos da atividade, modelos sintéticos podem ajudar a instituição a enfrentar alguns desafios comuns da rotina acadêmica.

Desafio do laboratório Como modelos sintéticos podem complementar
Grande número de estudantes utilizando o laboratório Permitem ampliar os pontos de contato com estruturas anatômicas
Necessidade de repetir uma mesma atividade diversas vezes Podem ser manipulados repetidamente em determinadas práticas
Diferenças entre as experiências oferecidas a cada turma Modelos padronizados permitem trabalhar com uma mesma referência anatômica
Disponibilidade limitada de determinadas estruturas Podem complementar o acervo utilizado nas aulas
Treinamentos com objetivos específicos Permitem selecionar modelos adequados à habilidade ou estrutura que será estudada
Atividades em que o uso de uma peça biológica não é indispensável Oferecem uma alternativa complementar para determinados conteúdos

 

A padronização merece atenção especial. Enquanto cada peça cadavérica possui suas próprias características, um modelo produzido segundo parâmetros definidos permite que diferentes turmas tenham contato com uma referência equivalente.

Isso pode ser particularmente interessante em demonstrações, avaliações práticas e treinamentos nos quais a instituição deseja criar condições semelhantes para diferentes grupos de estudantes.

Repetibilidade também pode ser uma vantagem pedagógica

Uma das características dos modelos sintéticos é a possibilidade de repetição. Uma estrutura pode ser estudada diversas vezes e utilizada por diferentes turmas sem depender de novos processos de obtenção e conservação de material biológico para cada atividade.

Em treinamentos relacionados a procedimentos, essa característica pode assumir ainda mais importância. Dependendo do modelo e do objetivo de aprendizagem, o estudante ou profissional pode repetir uma abordagem, estudar o posicionamento de um implante ou trabalhar com determinada condição anatômica de maneira planejada.

A experiência passa, assim, a contar com uma ferramenta complementar que não depende exclusivamente da disponibilidade de espécimes cadavéricos.

O desenvolvimento de tecnologias de fabricação tridimensional também amplia essas possibilidades. Modelos tridimensionais já foram comparados experimentalmente com materiais cadavéricos em diferentes contextos de ensino de anatomia, reforçando seu potencial como recurso pedagógico complementar.

O objetivo não precisa ser criar uma reprodução integral do corpo humano. Um modelo precisa reproduzir com precisão as características relevantes para aquilo que o aluno ou profissional deverá compreender ou praticar naquela atividade.

Sustentabilidade e qualidade acadêmica podem caminhar juntas

À primeira vista, sustentabilidade e qualidade do ensino podem parecer discussões diferentes. Na prática, elas podem fazer parte da mesma decisão. Quando uma instituição utiliza modelos reutilizáveis em atividades nas quais o material biológico não é indispensável, existe a possibilidade de reduzir a necessidade de mobilizar determinados processos de conservação, preparação e manejo de resíduos.

Isso não significa afirmar que um modelo sintético possui impacto ambiental nulo. Sua fabricação também envolve matéria-prima, processos industriais, transporte e descarte ao final de sua vida útil. Por isso, análises completas sobre sustentabilidade precisam considerar todo o ciclo de vida de cada solução.

Ainda são necessários estudos comparativos específicos para o ensino anatômico que permitam quantificar essas diferenças com maior precisão. Mesmo assim, existe uma oportunidade clara de gestão: reservar recursos mais complexos para as situações em que eles realmente acrescentam valor ao aprendizado e utilizar alternativas complementares quando elas forem capazes de cumprir o mesmo objetivo pedagógico.

Como avaliar onde cada recurso pode ser utilizado?

Antes de incorporar novos recursos ao laboratório, gestores e coordenadores podem começar fazendo algumas perguntas:

  1. Em quais atividades o contato com o cadáver é indispensável?

Identificar essas situações ajuda a preservar o uso do material biológico exatamente onde ele possui maior valor educacional.

  1. Quais atividades são repetidas com frequência ao longo do semestre?

Conteúdos apresentados várias vezes para diferentes turmas podem representar oportunidades para utilização complementar de modelos padronizados.

  1. Existem estruturas cuja disponibilidade limita determinadas aulas?

Nesses casos, modelos sintéticos podem ampliar o acesso dos estudantes ao conteúdo que precisa ser estudado.

  1. Todas as turmas recebem experiências práticas equivalentes?

A padronização pode ser interessante quando a instituição deseja que diferentes estudantes tenham contato com as mesmas referências anatômicas.

  1. Há treinamentos nos quais a repetição é fundamental?

Quando o objetivo envolve praticar uma determinada abordagem ou compreender repetidamente uma estrutura, modelos destinados a esse tipo de atividade podem contribuir para ampliar as oportunidades de treinamento.

Responder a essas perguntas ajuda a instituição a sair da lógica de “cadáver ou modelo” e avançar para uma abordagem mais estratégica: qual recurso é mais adequado para cada objetivo de aprendizagem?

Um laboratório mais sustentável não precisa abrir mão da tradição

A evolução do ensino anatômico não exige escolher entre tradição e tecnologia. Cadáveres continuarão desempenhando papel fundamental na formação dos profissionais de saúde. Ao mesmo tempo, modelos sintéticos, fabricação tridimensional e outras tecnologias ampliam o repertório disponível para professores, gestores e instituições.

Um laboratório mais sustentável não é necessariamente aquele que elimina práticas tradicionais. É aquele que consegue utilizar seus recursos de forma consciente, planejada e alinhada às necessidades pedagógicas de cada atividade.

Em algumas aulas, o contato com o cadáver será essencial. Em outras, uma representação anatômica fiel poderá oferecer exatamente o estímulo necessário ao aprendizado, com possibilidade de repetição, padronização e maior disponibilidade para os estudantes.

É nesse equilíbrio que tecnologia, sustentabilidade e qualidade do ensino podem caminhar juntas.

Onde a Nacional Ossos entra nessa estratégia?

A Nacional Ossos desenvolve modelos anatômicos sintéticos voltados ao ensino e ao treinamento de profissionais das áreas da saúde. Essas soluções podem complementar o acervo das instituições em diferentes situações, permitindo que determinadas experiências de aprendizagem sejam realizadas com modelos padronizados e reutilizáveis.

A proposta não é substituir indiscriminadamente o ensino cadavérico. É ampliar o repertório de recursos disponíveis para que gestores, coordenadores e professores possam selecionar a ferramenta mais adequada para cada objetivo de ensino e treinamento.

Ao combinar diferentes metodologias, a instituição pode preservar experiências fundamentais da anatomia tradicional e, ao mesmo tempo, incorporar novas possibilidades de prática, repetição e padronização.

Quer avaliar em quais atividades do seu laboratório modelos sintéticos podem complementar o acervo atual? Converse com a equipe da Nacional Ossos e conheça soluções desenvolvidas para diferentes objetivos de ensino e treinamento. 

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