Todo mundo que já retirou um livro de uma biblioteca sabe que aquele exemplar não foi pensado para permanecer nas mãos de uma única pessoa. Ele circula, retorna às estantes e volta a ser utilizado. Quando o assunto são recursos físicos empregados na formação em saúde, porém, essa lógica ainda é pouco explorada. Muitas instituições tendem a formar seus próprios acervos dimensionando-os para suas turmas, como se cada grupo precisasse ter à disposição um conjunto exclusivo de materiais.
A sustentabilidade no ensino médico costuma ser associada à escolha de tecnologias e materiais capazes de reduzirem o consumo de recursos. Mas há outra dimensão que merece ser considerada: não apenas o que uma instituição adquire, mas como essas ferramentas permanecem úteis ao longo do tempo. Pensar em modelos de compartilhamento, reutilização e gestão do acervo pode ampliar as possibilidades de planejamento das universidades e tornar mais estratégico o uso dos recursos destinados à formação em Saúde.
Desafios do ensino tradicional de anatomia
O ensino de anatomia com peças cadavéricas envolve uma cadeia extensa de procedimentos. Laboratórios que mantêm acervos precisam operar sistemas de refrigeração continuamente, utilizar agentes químicos como o formaldeído na fixação dos tecidos e seguir protocolos de ventilação para controlar a exposição ocupacional. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária estabelece, por meio da RDC nº 222/2018, critérios para o gerenciamento de resíduos de serviços de saúde. Nos Estados Unidos, a Occupational Safety and Health Administration estabelece limite de exposição ocupacional ao formaldeído de 0,75 ppm para uma jornada de oito horas.
Essas condições são inerentes ao trabalho com material biológico e, claro, não significam que a dissecção deva ser abandonada nas universidades. Afinal, a experiência com tecidos reais preserva características próprias, como a percepção tátil e tridimensional de estruturas anatômicas e de suas variações, aspectos fundamentais para a formação em saúde.
A questão está em reconhecer quais experiências exigem material biológico e onde outros recursos podem entrar em jogo para complementar o ensino com intuito de amplificar a formação.
Modelos sintéticos: complementaridade e reutilização
Modelos anatômicos sintéticos ocupam parte desse espaço. Uma revisão sistemática e metanálise publicada em 2025 no Journal of Biological Education reuniu sete ensaios clínicos randomizados, envolvendo 536 estudantes de graduação em Medicina. Os grupos que utilizaram modelos sintéticos apresentaram desempenho acadêmico moderadamente superior, mas a certeza da evidência foi considerada baixa. Os autores também ressaltaram que os resultados não justificam a retirada dos espécimes humanos dos currículos. Ou seja, diferentes ferramentas podem cumprir funções distintas dentro do processo de aprendizagem.
O interesse dos modelos sintéticos, portanto, não está em substituir o material cadavérico, mas em ampliar as possibilidades de formação. Diferentemente de uma experiência vinculada a uma única atividade, um modelo pode permanecer disponível depois da aula e ser incorporado a diferentes momentos do ensino. É justamente essa característica que permite pensar em outra forma de organizar o acervo.
Da coleção à biblioteca
Uma biblioteca de modelos anatômicos transforma essa possibilidade em uma estrutura de gestão. Em vez de manter conjuntos separados para cada turma ou disciplina, a instituição concentra os modelos em um acervo catalogado, estabelece regras de retirada e permite que os materiais sejam solicitados conforme a necessidade acadêmica.
O princípio é semelhante ao de uma biblioteca convencional, mas aplicado a recursos físicos de ensino. A diferença está no fato de que o objeto retirado pelo aluno não é um livro, mas um modelo anatômico que precisa ser conservado, controlado e devolvido ao acervo.
Essa organização também cria condições para acompanhar a demanda. Registros de empréstimos podem mostrar quais modelos são mais procurados, quais disciplinas os utilizam com maior frequência e em que momentos novos exemplares seriam necessários. Assim, a gestão do acervo deixa de depender apenas de estimativas e passa a contar com dados de utilização.
Do ponto de vista ambiental, essa possibilidade deve ser tratada com cautela. Uma redução efetiva de impacto exigiria indicadores específicos sobre vida útil, frequência de utilização, reposição e aquisições evitadas. Mas, o que pode ser afirmado, neste momento, é que uma estrutura compartilhada permite acompanhar o aproveitamento dos materiais e gerar dados para orientar decisões futuras de aquisição, reposição e expansão do acervo.
Biblioteca de Ossos Sintéticos em Jaú
Na parceria entre a Nacional Ossos e a Unoeste, no Campus de Jaú, esse conceito ganhou aplicação concreta com a Biblioteca de Ossos Sintéticos, que foi implantada no segundo semestre de 2026. O objetivo é disponibilizar modelos anatômicos aos estudantes fora do momento regular das aulas.
A iniciativa reúne seis conjuntos completos, totalizando 84 modelos anatômicos. Os materiais são catalogados e disponibilizados por meio de empréstimos, permitindo que os estudantes recorram às peças em diferentes momentos da graduação.
O projeto nasceu de uma demanda acadêmica e foi incorporado à infraestrutura de ensino da instituição. Sua particularidade não está apenas na existência dos modelos, mas na criação de uma rotina que permite aos estudantes consultar e utilizar o acervo de acordo com suas necessidades.
O que pode ser replicado
A experiência de Jaú tem sido acompanhada pela empresa e pela universidade e poderá, a partir dos dados obtidos, oferecer subsídios para instituições interessadas em desenvolverem estruturas semelhantes. A reprodução do projeto, contudo, não depende de copiar sua configuração exata. Cada instituição precisará considerar o perfil dos cursos atendidos, o número de estudantes, tamanho necessário do acervo e organização curricular, além de definir protocolos de conservação.
O ponto de partida é estabelecer uma gestão capaz de controlar o acervo e acompanhar sua utilização.
Em instituições com diferentes cursos da área da saúde, o mesmo acervo também pode ser compartilhado entre formações. Em estruturas maiores, a circulação entre unidades ou campi pode ampliar ainda mais sua utilização, desde que existam condições logísticas para isso.
Uma nova forma de pensar os recursos do ensino
A experiência da Biblioteca de Ossos Sintéticos mostra que a sustentabilidade na formação médica pode ser discutida de inúmeras formas, seja a partir da escolha entre materiais ou tecnologias ou da gestão dos recursos educacionais. O debate não precisa se limitar, ele pode alcançar a maneira como esses recursos são incorporados à rotina acadêmica e planejados para permanecer úteis em todo o processo de ensino e ainda perdurar por vários anos.
Em Jaú, essa nova lógica para o ensino de anatomia, baseada no compartilhamento e no melhor aproveitamento dos recursos, já ganhou aplicação concreta. E, em breve, os resultados da experiência devem trazer dados e oferecer subsídios para que outras instituições pelo mundo repliquem o modelo. Trata-se de um novo capítulo do ensino à Medicina, mais acessível e estratégico.
Conheça os modelos anatômicos desenvolvidos pela Nacional Ossos para promover um ensino de anatomia cada vez mais sustentável, preciso e acessível.




